domingo, 17 de dezembro de 2006

A Venenosa.Por Simone Azevedo

Escutando meu gasto e arranhado CD Sonatas de Beethoven, comecei a refletir sobre o mercado fonográfico de música erudita no Brasil.Vasculhando a memória à procura de recordações sobre minha experiência com este estilo musical, percebi que pouco ou quase nada sei sobre o assunto.
Decidi, então, informar-me e percorri incansavelmente as lojas de discos, esmiuçando as prateleiras, importunando os vendedores.Procurei por um lançamento.Algo inovador, com intérprete e arranjos interessantes. Mas, o que encontrei foram as mesmas músicas, dos mesmos compositores, tocadas pelos mesmos intérpretes do tempo em que eu passava os domingos na casa da vovó.
Conclui que se eu realmente quisesse me informar sobre o assunto (eu preciso,agora que escrevo uma coluna sobre arte e cultura) deveria buscar na sessão de importados. Recomendação do meu avô, um admirador da música erudita, que já não agüenta mais a inércia do mercado nacional.
Foi o que fiz. Eureca!Descobri a fonte de informações sobre música erudita!Uma gama de variedades abarrotando as prateleiras. Da Europa, dos Estados Unidos.Músicas e arranjos inauditos, interpretações interessantes,estimulantes. Ops!Um pequeno grande detalhe jogou um balde de água fria no meu entusiasmo. O PREÇO! Assustada e indignada saí correndo da loja.
Depois desse choque, resolvi fazer uma pequena pesquisa de campo entre vizinhos e amigos para tentar confirmar minhas suspeitas.Ah!Elas se confirmaram. Foram poucos os que ouviam ou mesmo conheciam Bach, Tchaikovski, Mozart, Chopin ou Vivaldis.
Como somos ignorantes! Mas, como é possível que nós, pessoas de classe média, apreciemos a música erudita num país onde a música erudita é tão desvalorizada, principalmente, por aqueles que lançam estes produtos no mercado, ou melhor, que não lançam. Os grandes empreendedores do mercado fonográfico esquecem que públicos se formam constantemente e que não há como apreciar Mozart sem conhecer boas interpretações de Mozart.
O argumento é sempre o mesmo: no Brasil não há consumidores para música erudita, muito menos com compositores e interpretes desconhecidos . Assim, transferem a culpa para a suposta ignorância da população. Ainda bem que o mercado da moda não caminha da mesma forma . O que seria da nossa querida colunista a Patty Literária, se tivéssemos que nos vestir como nossas avós e seus saiotes ultrapassados, caso os empreendedores da moda achassem que no Brasil não há pattys ou peruas suficientes para consumir suas inovações extravagantes?
Entretanto, sou obrigada a controlar meu veneno ao criticar este argumento dos empreendedores do mercado fonográfico. Ele não é de todo descabido, pois revela uma realidade vergonhosa sobre os consumidores da música erudita no Brasil. Grande parcela destes é constituída de pessoas que freqüentam concertos apenas pelo evento social que eles encerram. Vestem-se com todo o luxo e elegância e aguardam ansiosamente pelo cafezinho do intervalo. Outra parte destes consumidores quer apenas ostentar uma imagem culta.Adquirem CDs eruditos para adornar as estantes da sala e impressionar as visitas. O conteúdo musical pouco importa.
E é este comportamento que parece nortear o mercado de música erudita no Brasil para a decepção de uma minoria que está sempre em busca de novas músicas, escritas por compositores diferentes e interpretada pelos mais diversos músicos.
“Quem nasceu primeiro? O ovo ou a galinha?” Parafraseando-parodiando esta antiga e complexa questão que desafia filósofos e cientistas: Quem nasceu primeiro?A ignorância ou o ignorante?

23 comentários:

Aline Dias disse...

Questão interessante num texto fácil de ler.
Só toma cuidado com alguns períodos em que vc repete as mesmas palavras e trava um pouco o texto.

Ficou bom.

Sylvia disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ton (Weverton) disse...

'Sem o ignorante ninguém cometeria ignorâncias'. Isso tudo é realmente fato, pois por experiência própria tirei as mesmas conclusões que você. Mas, trazendo esse contexto um pouco mais próximo a minha realidade, não apenas músicas, compositores, ou ouvintes do estilo erudito são tratados dessa forma no Brasil. Ha uma gama enorme de novos estilos muito interessantes, e que valem a pena de serem ouvidos, mas não saem nunca do underground. Algumas dessas bandas até preferem esse espaço do underground por saberem que ali está quem realmente se interessa por tal musicalidade, mas essa é outra discussão.
Podemos ser ignorantes o suficiente para não ouvir músicas tão interessantes de tais compositores citados por você no texto, mas tais músicas sabemos que existem, ou ao menos ouvimos falar de um tal maluco que compunha músicas incriveis e era surdo. Mas e o underground??? Existe uma aparente estagnição musical no Brasil, justamente por causa do underground ter virado um ambiente onde não existem tantas diferenças sociais, pelo menos não impostas, e o único motivo de tais 'reuniões' é a música. Muitas pessoas estão deixando de ouvir músicas que gostariam de ouvir por simplesmente nem saberem da existência dela nesse ambiente meio excluso. E não digo só rock'n'roll, existem bons músicos de todos os estilos que não são reconhecidos por ninguém.
Por fim, jamais desmerecendo tais artistas, Bach, Vivaldis, Bethoven, Mozart, mas, assim como eles inovaram em suas épocas, gostaria de presenciar inovações em nossa época. Música de qualidade existe hoje em dia, mas é preciso revirar internet, sebos, ir a shows pouquíssimos divulgados... e tanta procura nos fazem quase desistir no caminho. Como amante de música, pessoalmente, digo que música não é estatus, não é poder, é arte, paixão (salvo algumas exceções). Ignorantes são os que deixam de apreciar uma boa música pelo impacto social que ela tenha, ou não tenha.

( dando uma de intelectual.... hehe É que gostei muito do tema e tive que TENTAR expor minhas opiniões... espero que dê ao menos pra enternder a idéia... e lembre-se que sou um mero matemático... hehe)

bjoss

Sylvia disse...

Tem gente que não gosta de música clássica exatamente por causa da ostentação, da superioridade que algumas pessoas fazem ela parecer ter. "Oh, só consegue gostar de música erudita quem tem os ouvidos apurados..." Pura burrice. Algumas pessoas simplesmente não gostam de música erudita porque não tem a menor intimidade com ela. Lógico, ela não toca nas rádios e só aparece na TV embalando algum momento trágico.

Comentando o comentário do ton (weverton), concordo plenamente. Basta lembrar dos cantores baianos, a maior parte deles preferia cantar MPB do que axé, mas lá "só existe mercado pro axé", então eles tiveram que ceder pra não deixar de viver de música.

shasha disse...

Mto bom o texto mesmo, está facil de ler e compreender a mensagem q vc quis passar!

Agora qnto ao conteudo...

Pra falar a verdade... só uma dessas ignorantes...

Qr dizer... nao sou mto de ouvir musica erudita, e cd, ixe... nao tneho nenhum...

Talves um dia saia dessa minha ! "ignorancia" e ouça alguma coisa.

Mas, concordo com vc em um ponto... há mta gente que tem esse tipo de cd, pra se achar superior as outras... (nao que necessariamente seja)

Pq acredito num ditado q considero infalivel...

"Gosto é igual c* cada um tem o seu"

bom é isso!

bjo

Simone Azevedo disse...

Tom,seu cometário está totalmente "entendível".Você tem toda razão.Delimitei o tema do meu artigo com MÚSICA ERUDITA,para exeplificar,mas essa triste realidade pode ser facilmente transferida tanto para outros estilos musicais,quanto teatrais e fílmicos.
Fico feliz que poder levantar discussões e questinamentos.Esse é o objetivo do meu trabalho:FAZER REFLETIR.

Marcela disse...

Adorei o texto.
A pergunta final é um verdadeiro dilema.
Parabénsss querida.

Beijinhossss

:**

Gaby disse...

adorei o texto!!
e o q foi esse comentário sobre a patty literária?! hauahuahauahaua...
Bjos! XD

BruneLLa França disse...

Não concordo com tudo que está escrito no texto, mas é uma discussão interessante!
Não tacharia uma pessoa de ignorante musical só porque ela não gosta de música erudita. Ninguém tem a obrigação de gostar. Se ouve e gosta, ótimo. Se ouve e não gosta, respeite. Se não ouve aí é problema, porque você só pode decidir se gosta de alguma coisa ou ão a partir do momento em que conhece.
Temos preconceitos sim! Musicais inclusive. (Não estou dizendo que eu não gosto de música erudita, porque eu realmente gosto bastante).
Quanto ao desenvolvimento do texto, concordo com a Aline. Algumas partes 'engasgam' e você pode melhorar isso Simone. Não há necessidade de usar algumas palavras numas frases e a redundância não precisa ser tão marcada. Tente deixar seu texto mais leve. O assunto de sua coluna é propício e pede isso de você.

Simone Azevedo disse...

Obrigada pelas dicas gramaticais Aline e brunella.eu me sinto bastante insegira nesse aspecto.estou sentindo um pouco de falta do auxílio do copidesque.
Mas quero fazer uma pequena retificação quanto ao comentário da Brunella.
Brunella sugiro que vc releia o texto pq ele não diz o q vc entendeu.Não critico as pessoas que não gostam de música erudita.Critico a inexistente divulgação que faz com as pessoas não conheçam e por conseguinte não gostem.Logo os IGNORANTES=empreededores do mercado fonográfico que são de certa forma responsáveis pela suposta IGNORANÇIA dos que desconhecem.aí eu me incluo nessa história.

BruneLLa França disse...

Você exclamou: Como somos ignorantes! Mas tudo bem. Talvez, sua intenção era dizer uma coisa, mas a construção que você fez oferece mais do que a sua construção de possibilidade de leitura!

Simone Azevedo disse...

Acho que essa exclamação pode não ter sido bem assimilada por algumas pessoas Brunella.Mas,tudo bem,eu explico.Afinal este espaço aqui é exatamente para isso,além das rasgações de seda,é claro.
Bom,acho que a explicação anterior esclarece isso também.
Mas enfim,esclarecidos alguns pontos,agradeço os comentários aqui postados.Como disse a um amigo,espero receber comentários e não elogios.Vocês,leitores do Blog,não precisam concordar com as opiniões postas aqui,e é pra isso que serve a interatividade que a internet proporciona.
BJ Cheio de veneno a todos

OBS:desculpe a ignorância escrita com ç E sem acento.Erro de digitação.Mas sincedramente acho que essa palavra deveria ser escrita de outra forma:
IMGUINÓRANSSIA

BruneLLa França disse...

¬¬' essa nova forma de escrever tal palavra é uma agressão aos olhos!

Simone Azevedo disse...

Brunella,parodiando uma música de autoria da colunista Sylvia,
BOTA NO AZEVEDINHO!

Ton disse...

Simone,
concordo plenamente com vc, e entendi mto bem o que vc quiz passar e em qual discussão quiz entrar... Sou apenas leigo, nem ao menos estudo grámatica, mto menos disciplinas do curso de vcs...
Só não concordo com alguns comentários aqui expostos... Em momento algum me senti ofendido por tb não ouvir musica erudita. É um estilo no mínimo belo, mas não está na minha estante de cds, assim como não está na maioria das estantes dos brasileiros. Porém não entendi como sendo essa a discussão chave do seu texto, e por isso não concordo com alguns comentários. Pelo meu entender, ignorância significa desconhecimento de alguma coisa, ou estado de quem ignora algo. Então penso que ignorância, no texto proposto, não seria das pessoas que não GOSTAM de música erudita, ou qualquer outro estilo, mas sim de pessoas que simplesmente que, como que com um cabresto, só enxergam o que estiver em sua frente. Pois, hj em dia, a maioria das pessoas escuta, lê, assiste o q estiver na mídia. Não temos acesso a tudo o que queremos, até mesmo com a facilidade da internet e meios de comunicação, simplesmente por NÃO CONHECERMOS certas coisas. E é ai que entendo onde deve estar encaixados a ignorância. E nem temos culpa disso! Somos ignorantes pq nos impõem essas condições, qdo, e principalmente, nos acomodamos a elas e não buscamos algo que seja inacessivel, pois acredito q só a sede do conhecer ja nos torna um pouco menos ignorantes.

Gabrielle disse...

"Outra parte destes consumidores quer apenas ostentar uma imagem culta."
huahuhauuha
É um ponto de vista interessante, Simone!

Robson disse...

Se eu fosse comerciante não venderia garda-chuva no Saara e nem geladeira no polo norte. O publico para a música erudita no Brasil é realmente muito pequeno. Não dá dinheiro. É o capitalismo!
Mas o gosto por esse tipo de música não deve ser associado à "ignorância" pois o gosto músical é uma preferência de cada indivíduo por algo que lhe agrada, sendo culto ou não.

Janaina disse...

Eu concordo com a Simone. E não percebi as coisas que a Aline a Brunella disseram. Pra mim o texto tava muito leve, muito bom de ler.

E eu acho q houve um equívoco sobre a ignorância. Acho que a Simone quis dizer que somos ignorantes quando dizemos que não gostamos de música erudita (ou de qualquer outra coisa) sem sequer a conhecer.

Damiana disse...

Bom Simone achei o seu texto mt interessante, pq nos faz pensar sobre o assunto...
Até pq pelo o q eu entendi o q vc quis passar foi uma critica tipo d q a maioria dos brasileiros nao tem acesso ou pq tb as vezes nao eh mt exposto a musica erudita!!!

Bom mais gostei do seu texto viu Venenosa =]

Bjusss

Mau disse...

boa discussão! a ignorância gerada nos consumidores pea indústria da música.
Eles detém o monopólio de dizer o que se grava e o que fica sem ser levado ao público. Isso não é democrático, e nos cerceia de escolher do que gostamos de verdade. Música erudita foi um exemplo entre muitos outros.

talvez algum dia, em uma sociedade ALternativa, possamos escolher com mais liberdade quilo que queremos ouvir. aché, pancadão, METAL***, jazz, música clássica.....

Tasha! disse...

Parece o Curtiss divagando sobre nossa ignorância por não gostarmos de cinema preto-e-branco e mudo.
A questão da divulgação é pertinente.Não tocar em rádios ajuda muito pra que a musica erudita continue a não ser apreciada.Mas o texto tampouco escapa da hipocrisia que você denunciou.

Simone Azevedo disse...

Era exatamente essa a intenção!

Anna K disse...

Gostei do texto, mesmo, fácil de ler e tal...
mas o mais interessante mesmo foi essa discussão na qual, querendo ou não, todo mundo acaba se atentando mais ao assunto e adquirindo mais informação!

Palmas pra dona Simone..! =P