sábado, 27 de janeiro de 2007

A Venenosa por Simone Azevedo

Um pouco de realidade não faz mal a ninguém

Na sociedade de consumo em que vivemos, os apelos que a publicidade e a propaganda são capazes de fazer aliados à alienação promovida pelos veículos de comunicação de massa e a deseducação da maioria dos subcidadãos brasileiros, é criada, desenhada e pintada com lápis de cor uma realidade de glamour, induzindo-os a canalizar esforços no sentido de adquirir as mercadorias e, com elas, as promessas de acesso mais fácil ao prazer e ao poder.
Essa idealização do consumo leva o individuo a se submeter aos valores sociais dominantes e não a questioná-los, aceitando assim, as desigualdades sociais como coisa natural. E ao invés de desejar modificar a sociedade, ele se lança de corpo, mente e alma a tarefas individuais de promoção pessoal.
É com o intuito de contribuir com a transmissão de um pouco da nossa realidade real que eu mudo a temática da coluna dessa semana. Arte e cultura é essencial para desenvolver a capacidade intelectual e, conseqüentemente, crítica de um cidadão. Entretanto, não é nesse mundo cor-de-rosa das artes no qual está inserida a maioria da nossa população. E se quisermos que um dia ela esteja, é necessário, antes de qualquer coisa, devassar a realidade real e conscientizar o povo de que vivemos uma realidade irreal. Em outras palavras, abrir-lhes os olhos.

Todos feitos da mesma argamassa, porém...

Somos todos biologicamente iguais. Feitos de carne, ossos e sangue. Somos, portanto, constituídos pela mesma argamassa. E quando se trata da saúde, ricos e pobres estão sujeitos a sofrer dos mesmos males. Desidratação, problemas digestivos, carência de minerais, estresse, intoxicação, desnutrição, fome e não- utilização de remédios são realidades que atingem todos os seres humanos independente da etnia, religião, ideologia política ou classe social.
Os motivos, porém, de tantos males são muito diferentes, bem como são outras as terapias indicadas e bem inferior a qualidade dos serviços médico-hospitalares disponíveis para a grande maioria da população.
Para esta grande parcela de desprivilegiados, a desidratação não é causada por excesso de sol tomado nas piscinas e praias ou pela idade avançada. Muito menos os problemas digestivos se devem à alimentação rica em gordura, açúcar, refrigerante e fast foods.
Também não é por descuido com a escolha dos alimentos, preterindo vegetais e frutas em favor de massas, frituras e doces que grande parte do povo brasileiro sofre de subnutrição e desnutrição. A fome que sente não é a mesma que tortura os que fazem dietas alimentares em busca do corpo perfeito.
Quanto ao estresse, não são frustrações amorosas e preocupações com as cotações do dólar que o provocam, e se remédios não são utilizados é por falta de quem os receite ou dinheiro para comprá-los.
“Mas para quê remédios, se para combater problemas digestivos, intoxicação, carência de minerais e desnutrição, basta ter uma alimentação balanceada e realizar atividades físicas regulares?” “E quanto ao estresse, pra quê se entupir de remédios se alguns dias de férias no campo ou excelentes clínicas de relaxamento, os SPAs, podem resolver o problema?” “E para a desidratação existem os ultra-mega revolucionários protetores solares de última geração a venda nas melhores drogarias do país.”
Essas são as sábias recomendações dos mais conceituados médicos, nutricionistas, psicólogos, publicitários e empresários.
Entretanto, como dizer a um operário que recebe um salário mínimo, que ele precisa manter uma dieta balanceada e praticar atividades físicas regulares? Logo ele que está acostumado a correr e transpirar quando se movimenta de casa para o trabalho e quando tem que esticar o arrochado salário que compra o insuficiente necessário para não morrer de fome? Como dizer a este operário que há vários SPAs que oferecem massagens e saunas relaxantes que fazem o estresse desaparecer como num passe de mágica? Logo esse subcidadão que só tem condições de ser atendido (e nem sempre é) pelo defasado, ineficiente e inoperante Sistema Único de Saúde (SUS)? Como dizer a esse humilde operário que para combater as manchas e sardas que se proliferam em seu rosto e braços e proteger a pele do ressecamento e evitar o câncer, ele precisa usar um protetor solar, e sobretudo, evitar a exposição ao sol? Logo esse trabalhador que precisa labutar durante horas e mais horas sob o sol a pino, sem ter a menor condição de escolha sobre isso, sem ter alternativa?
Como dizer que somos todos iguais porque somos constituídos pela mesma argamassa, se só alguns, poucos, receberam acabamento, e os outros, muitos, permaneceram construções inacabadas?

Glossário crítico

Arrochado: curto; pequeno; apertado; insuficiente; irrisório; ridículo; vergonhoso; piso (subsolo) salarial dos jornalistas.
Arte e cultura: importante e supérfluo.
Cotações do dólar: preocupações de rico.
Deseducação: desconhecimento; ignorância; ausência de instrução; precariedade no sistema educacional brasileiro; o que se aprende (desaprende) nas escolas públicas.
Fome: preocupação de pobre.
Publicidade e propaganda: ilusionismo da palavra; malabarismo da verdade; nó em pingo comercial.
Realidade irreal: sociedade do consumo; prazer individual; glamour; Shoping Praia Costa; Malhação; novela das oito; Sandy e Jr.
Realidade real: miséria; fome; fosso social; desemprego; indigência; prostituição infantil; violência; favelas; corrupção; mensalão.
Subcidadão: um cidadão que não exerce sua cidadania plenamente; cidadão de papel; cidadão de segunda classe.
Salário mínimo: esmola; mecharia; ninharia.
Veículos de comunicação de massa: meios de lavagem cerebral, desinformação e emburrecimento; Jornal Nacional; a grande mídia.

2 comentários:

BruneLLa França disse...

Simone, sua acidez nesta coluna foi palpável! E com toda razão!!!
Precisamos sim escutar um sábio ensinamento d Leonardo DaVinci: "Abra os olhos e VEJA!"

O ideal seria q todos pudessem ser lapidados! Cada ser humano é uma jóia q irradia possibilidades! Mas é preciso trabalhar os talentos e desenvolver as competências de cada um... Infelizmente, isso não vem sendo feito!

Vocabulário:
Realidade irreal: Malhação; novela das oito; Sandy e Jr. Insupotável viver nestas condições
Realidade real: Indignante viver essa realidade...
a fome é uma pandemia endêmica em 2/3 da população do planeta...

Marcela Rangel disse...

Estou simplesmente abismada!
Claro que não é nenhuma novidade eu gostar de um texto seu, mas é novidade me deparar com uma competente antropóloga/socióloga que é você, Simoninha.
Parabéns de verdade!

Beijo grande

:**