sexta-feira, 26 de janeiro de 2007

Amarra Experimental por Natasha Siviero

Natasha de volta.E com notícias da Bahia.


Itacaré,

Quarenta minutos de trilha para chegar na praia onde o rio Jeribucaçu deságua no mar.Os poucos que encararam a caminhada aquele dia estavam na água:é o surf que justifica as longas subidas.Para mim,porém,a perspectiva de praia vazia e rio quente pareceram suficientes.
Quando eu cheguei ao rio, meu pai e minha mãe conversavam com dois miúdos locais e riam. Papai me explicou que eles cobravam dois reias para levar os turistas até a Cachoeira da Usina e quis ser engraçadinho:

_Presta atenção, filha. Eu vou pagar os dois reais e seguir Romário.Você me segue.Não vale olhar pra ele, senão terá que pagar também.
E o menino respondeu rápido. Era esperto e baixo. Devia ter uns 10 anos.
_Olhe se eu ia cobrar pra levar menina bonita...
_E ainda de zóio azul_ complementou o outro pequeno, de nome João, sem descuidar os olhos dos peixes que passavam no rio.
_Então fica acertado _disse meu pai,sem o menor interesse real de levantar do rio e se aventurar na caminhada.
_Fica. Só precisamos decidir quem levará o senhor.

Papai propôs uma brincadeira: faria uma pergunta e quem respondesse mais rápido seria o contratado. E foi assim:

_Somos oito pessoas e vocês cobram 2 reais pra levar cada uma.Se eu fosse pagar pra todo mundo,quanto eu daria a vocês?

Ninguém respondeu. Meu pai simplificou. 8x2.

Enquanto João respondia números absurdos sem parar, Romário mantinha a cabeça submersa, como quem não estava ouvindo.

_8x2.

E passou outro pequeno, ainda menor. Com a cueca sobrando por toda a perna:roupa do irmão mais velho!
_Se esse ai não sabe nem ler...

João, o mais moreno, e o mais novo continuaram a brincar. Contentes e resignados, como costumam ser os irmãos mais novos, com a vida e a roupa herdada. Contavam que a praia era o destino certo da garotada todos os dias.
Um peixe grande passou, fazendo os meninos gritarem por Romário, que estava já na outra margem do rio.Sentado, com seu calção novo e justo,não deu ouvido aos miúdos.Ficou com sua dor, que eles não puderam entender.

6 comentários:

BruneLLa França disse...

Hiper feliz por ter Natasha de volta! Mais ainda por encontrar novamente seus textos...
A dor de Romário não é exclusiva! Quantos Romários mais existem neste país!!! É lamentável que a educação no Brasil ainda não tenha caráter universalizante...
*lágrimas teimosas*

Simone Azevedo disse...

Natasha, que bom que voltou.Nossa correspondente especial na Bahia não poderia deixar de nos trazer um excelente texto de retorno.
Educação,educação, educação...
E ela não é prioritária nos planos atuais do governo...
Por que será?

Simone Azevedo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Simone Azevedo disse...

Ah, pensei e acho que cheguei a uma conclusão:

a ECONOMIA é mais importante.

Deve ser esse o pensamento que nortei as ações dos nossos governantes.

Aline Dias disse...

8x2 é 8x2 e não se discute!
E não saber dói.
a cachoeira ele conhece.
ele sabe que o que ele sabe tem valor.
ele atribuiu valor.
mas ele sabe que teria mais valor, se ele soubesse mais.
a questão que dói é: como?

Marcela Rangel disse...

Natasha, querida, como sempre adorei seu texto.
Ser correspondente é muito chique. E você leva jeito pra coisa.

:)


Beijinhosss

:**