segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Ave Franklin!, por BruneLLa França

Por uma blogosfera livre!

O jota-i entra também na campanha pela blogosfera livre.
O resumoé o seguinte: blogueiro Antonio Arles (estudante de História da USP, militante de movimentos sociais, ciberativista) versus grupo Folha.

Mais informações sobre o caso, você encontra aqui, aqui e aqui.

E o que diz o estudante? Confira nessa entrevista, retirada do blog Vi o mundo.


Antonio Arles: Aproximadamente às 14 horas, quando saía de casa para a USP. Minha mulher [Flávia] manobrava o carro na garagem e eu esperava na calçada. Aí, fui abordado por um motorista de táxi, que perguntou se eu era Antonio. À confirmação, apontando na direção de um táxi parado no lado oposto à minha casa, disse: “Ela quer falar com você”.

Viomundo: Ela era quem?

Arles: Uma mensageira do escritório de advocacia que representa o jornal e o portal. Ela limitou-se a dizer que havia uma correspondência para mim e pediu-me que assinasse o protocolo de recebimento. Como estava atrasado para a aula, abri o envelope no caminho. Aí, eu vi que se tratava de uma notificação extrajudicial dos advogados da empresa pelo uso indevido da imagem na campanha pelo cancelamento das assinaturas da Folha e do Uol.

Viomundo: A campanha começou quando?

Arles: Domingo passado.Na sexta-feira passada [27 de novembro], em função da publicação do artigo Os filhos do Brasil, do César Benjamin, começou no twitter um movimento para cancelamento das assinaturas. No domingo, como já havia muitas adesões, resolvemos lançar a campanha.

Viomundo: É uma campanha do seu blog?

Arles: Não. É de várias pessoas da blogosfera. Para facilitar o acesso, eu coloquei os links das imagens no meu blog. A partir daí o pessoal foi disseminando.

Viomundo: O que contêm essas imagens?

Arles: As marcas da Folha e do Uol.

Viomundo: Qual a alegação dos advogados?

Arles: Uso indevido da imagem. No final da tarde, fiz o que notificação determinou: retirei as imagens do ar. Consequentemente a própria campanha do meu blog.

Viomundo:
O que você pretende fazer agora?

Arles: Meu advogado está estudando medidas legais cabíveis contra essa postura da Folha. Considero intimidação. É cerceamento à liberdade de expressão.

A notificação da Empresa Folha da Manhã SA e do Universo Online SA afirma que "a marca da Folha e do Uol foram indevidamente utilizadas, agravando-se tal fato pelo seu denegrimento", e reproduz as imagens que ilustram esta matéria. "tal atitude fere diversos dispositArtigo 189, I, ivos legais, constituindo crime previsto no Artigo 189, I, da Lei nº 9/279/96".

O Viomundo observa a respeito que "denigrir [ou, como prefere a notificação, denegrir} é um termo racista. Significa tornar negro, em sentido pejorativo. Há outras palavras para expressar o que desejam, mas recorrem a uma com conotação preconceituosa, que associa o tornar-se negro a algo negativo. Denigrir, segundo o dicionário do Houaiss, quer dizer também diminuir a pureza, o valor de; conspurcar(-se), manchar(-se)."

terça-feira, 16 de junho de 2009

Sociabilidade tecnológica: o descrédito do próximo, a perda do outro e a dúvida de si mesmo

Resumo
A cultura da virtualidade proporcionada pelos meios eletrônicos de comunicação (re) cria toda uma conjuntura de relações pessoais e de trocas simbólicas. A interação face a face, em certa medida, dá lugar à interação mediada pela tecnologia. O presente artigo se propõe a explicitar algumas maneiras de como o desenvolvimento dos meios técnicos de comunicação transformou as formas de sociabilidade, criou novas formas de identidade pessoal, alterou as formas de percepção do individuo sobre o outro e modificou as maneiras de transmissão, recepção e decodificação de bens simbólicos.

Palavras-chaves: mídia, comunicação, interação, sociabilidade, identidade e modernidade.

Introdução
É crédito dos chamados teóricos da mídia e da modernidade, tais como Stuart Hall e John B. Thompson, terem realçado o fato de que o desenvolvimento dos meio técnicos serve para reorganizar e reconstituir a interação social. Esses teóricos argumentam que o surgimento de novos meios técnicos possui um impacto fundamental nas maneiras como as pessoas reconhecem a si próprias e como agem e interagem umas com as outras. Hall analisa que “quanto mais a vida social se torna mediada [...] pelas imagens de mídia e pelos sistemas de comunicação globalmente interligados, mais as identidades [...] parecem flutuar livremente” (Hall, 2006, p.75). Segundo seus estudos, o resultado disso é uma fragmentação das tradições culturais de classe, gênero, sexualidade, etnia, raça e nacionalidade, que, por se encontrarem com fronteiras menos definidas, provocam no individuo uma crise de identidade. Para Thompson, a cultura moderna é, de uma maneira cada vez maior, “‘uma cultura eletronicamente mediada’, em que os modos de transmissão orais e escritos foram suplementados e, em até certo ponto substituídos, por modos de transmissão eletrônicos” (Thompson, 1995, p. 297).

O reflexo das transformações da identidade na sociabilidade
O sujeito é o elemento central das interações sociais. Por isso, cabe destacar a relevância do conceito de sujeito pós-moderno feito por Hall. Segundo o teórico, diferentemente do sujeito do Iluminismo cuja base é a concepção do individuo totalmente unificado e centrado, e do sujeito sociológico cuja essência é formada a partir da interação entre o inato e o mundo exterior, o sujeito pós-moderno “assume identidades diferentes em diferentes momentos, identidades que não são unificadas ao redor de um ‘eu’ coerente” (Hall, 2006, p. 13). Diante dessa concepção, a questão da identidade na pós-modernidade assume uma diversa pluralidade. As identidades tornaram-se menos fixas e mais fluidas. Essa fluidez é, também, resultado e resultante da inovação tecnológica. Os meios técnicos possibilitam às pessoas comunicarem-se de maneira eficiente ao mesmo tempo em que as condicionam a adaptarem seus comportamentos para corresponder ás novidades oferecidas pelo desenvolvimento dos novos meios de comunicação. Thompson avalia que “ao separar a interação social do local físico, o desenvolvimento dos meios técnicos afeta, também, as maneiras como, e o quanto, os indivíduos são capazes de gerenciar sua auto-representação” (Thompson, 1995, p. 302). O exemplo que utiliza para fundamentar sua teoria é o de uma conversa telefônica entre sócios comerciais, na qual um deles ou ambos poderiam procurar suprimir ruídos do local físico para que a imagem que desejariam projetar fosse compatível com o referencial interativo.
Outro ponto importante da análise de Thompson é o estabelecimento de novos contextos e formas de interação onde as pessoas estão rotineiramente integradas na recepção e apropriação das mensagens mediadas pelos meios. As pessoas condicionam seus comportamentos não só para enviar como também para receber os conteúdos midiáticos. O telefone fornece outro exemplo bastante ilustrativo. Quando um empresário ou alguém em cargo de chefia contrata uma secretária, a função específica desta, além de lidar com a documentação referente ao trabalho do chefe, é atender ao telefone. O simples ato da contratação de uma secretária demonstra um condicionamento comportamental dos indivíduos envolvidos em função da adequação ao produto mediador que é, no caso, o telefone.
Interações mediadas implicam, como fala Thompson no livro A mídia e a modernidade: uma teoria social da mídia, em um estreitamento da possibilidade de deixas simbólicas trocadas entre os interlocutores. “Ao estreitar o leque de deixas simbólicas, as interações mediadas fornecem aos participantes poucos dispositivos simbólicos para a redução da ambigüidade na comunicação” (Thompson, 2005, p. 79). Uma carta comercial, por exemplo, possui menos deixas simbólicas do que uma conversa telefônica que trataria do mesmo assunto. A carta não possibilita os símbolos próprios da oralidade: entoação da voz, pausas mais ou menos prolongadas entre as palavras ou as frases, etc. Em contrapartida, uma conversa telefônica inviabiliza toda uma gama de deixas simbólicas que só seriam possíveis em uma conversa face a face: expressões faciais, linguagem corporal, sustentação ou não do olhar, etc.
Os meios técnicos possibilitam às pessoas interagir umas com as outras através de distâncias temporais e especiais. É, dessa forma, característica dos meios técnicos separar a interação social do local físico, ampliando as possibilidades de interação. Para Thompson isso é uma conseqüência positiva uma vez que “os meios de comunicação de massa ampliam a acessibilidade das formas simbólicas no tempo e no espaço” (Thompson, 1995, p. 299) permitindo tipos específicos de interação mediada e de trocas simbólicas entre produtores e receptores. As trocas de e-mails, por exemplo, servem para ilustrar a gama de possibilidades de interação social independentemente da situação espaço-temporal vivenciada pelos participantes. Em contrapartida, Thompson acredita que a constituição espacial e temporal da interação mediada restringe a natureza das relações formadas através dessa interação. “Uma pessoa conhecida apenas através das conversações por telefone é, literalmente, uma pessoa sem rosto e, na maioria dos casos, é improvável que ela se torne objeto de um laço emocional profundo” (Thompson, 1995, p. 302).
A compressão espaço-tempo proporcionada pelo desenvolvimento dos meios técnicos altera também, de acordo com Hall, os sistemas de representação. “O tempo e o espaço são também as coordenadas básicas de todos os sistemas de representação” (Hall, 2006, p. 70). O teórico explica que a pintura, a escrita, a fotografia, e todas as formas que o homem utiliza para representar a si mesmo, aos outros e aos lugares que o rodeiam carregam seus referencias de espaço e de tempo. Se os referencias se alteram, a representação que o homem faz deles também se altera. Sendo o homem espelho da realidade que o cerca e, sendo na modernidade essa realidade fragmentária e dispersa, o homem “vê a si próprio/a espelhado nos fragmentos e fraturados rostos que olham os planos e superfícies partidos de uma das pinturas cubistas de Picasso” ( Hall, 2006, p. 71).

Considerações finais
A construção da realidade, na qual privilegia-se a informação midiatizada em detrimento da informação dos sentidos cria uma sensação de volatilidade diante da vida. O resultado disso parece ser o inicio de um colapso da comunicação social devido a um progressivo isolamento individualista na medida em que sujeitos sem face praticam uma sociabilidade dispersiva em um espaço físico que, na era da tecnologia da informação, é suplementado por um espaço social dilacerado pela velocidade e pela aleatoriedade. Tudo se dilui conforme as regras da tirania do fugaz, como descreve John Berger (2004, p. 218): “É um espaço sem horizonte. Tampouco há continuidade entre as ações, em pausas, nem atalhos, nem linhas, nem passado, nem futuro. Vemos apenas o clamor de um presente desigual e fragmentário. [...] O que vemos é uma espécie de delírio espacial.” Há um embaralhamento dos tempos e, as noções de passado, presente e futuro perdem significado. É o que Lyotard chama de “fim das grandes narrativas”.
O espaço público representado pela cidade e seus ambientes de socialização está sendo solapado pelo espaço domiciliar equipado pelos aparatos tecnológicos. “Na atualidade frenética, as relações tendem a virtualizar-se ou telerrealizar-se no cenário de midiatização, caracterizado por mediações e interações baseadas em dispositivos teleinformacionais” (Sodré, 2002, p. 21-25). No discurso legitimador dessas transformações sociais, o mito da intensidade se sobrepõe à importância da durabilidade. E a quantidade à qualidade. “O parâmetro com que se mede o valor da experiência tende a ser sua capacidade de produzir entusiasmo, não a profundidade de suas impressões” (Bauman, 2004, p. 231).
Ainda citando Bauman, em Modernidade Líquida, o autor lembra que historicamente “o progresso era identificado com o abandono do nomadismo em favor de um modo de vida sedentário” (2001, p. 214). Porém na era da virtualidade “as populações sedentárias sitiadas recusam-se a aceitar as regras e riscos do novo jogo de poder ‘nômade’, atitude que a nova elite global acha extremamente difícil de entender e não pode perceber senão como um sinal de retardamento e atraso” (2001, p. 226).

Referências bibliográficas

BAUMAN, Zigmunt. Amor Líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Tradução de Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
BERGER, John. El tamaño de uma bolsa. Buenos Aires: Taurus, 2004.
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 11ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.
SODRÉ, Muniz. Antropologia do espelho: uma teoria da comunicação linear e em rede. Petrópolis: Vozes, 2002.
THOMPSON, John B. A mídia e a modernidade: uma teoria social da mídia. Petrópolis, RJ: Vozes, 2005.
THOMPSON, John B. Ideologia e cultura moderna: teoria social critica na era dos meios de comunicação de massa. Petrópolis, RJ: Vozes, 1995

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Bem senhoras e senhores. Por BruneLLa França.

Mágica da bola

Na infância, mágica costumar vir sempre associada a um objeto. A tal varinha. Quantos não sonhamos em ter uma delas? Mas, nem só de varinha vive o reino da magia. Num primeiro olhar, ela não tem nada de especial. Num segundo também não. Num terceiro, continua a não ter.

Observada atentamente, uma bola de futebol não parece mesmo promissora para a magia. Sozinha, ela é tão comum quanto qualquer outro objeto. Assim como a varinha, a bola não faz mágica sozinha. A varinha precisa da mão do mágico. A bola, do pé.

Chuta, rola, passa, corre, dribla, voa, pedala. Ao contrário da varinha, que toca outros objetos e os faz encantados, a bola encanta a si mesma ao encontrar o talentoso toque dos pés.

Não sabemos explicar como uma simples varinha faz surgir um coelho de dentro de uma cartola; como faz alguém desaparecer e depois reaparecer. Parece tão fácil. Também parece fácil quando vemos grandes mágicos com a bola nos pés encontrando espaço entre quatro jogadores e saindo sozinho para fazer o gol.

Mas existem mágicas que não se explicam. Faltam palavras! Assim como existem mágicos da bola que não se explicam. Também faltam palavras. Rainha? Alteza? Gênia? Majestade? Que ‘nome’ dar para ela? Como definir o que ela faz com a bola nos pés? Arte? Mágica? Não sei.

Assim como acompanhamos um mágico fazer alguém flutuar, também acompanhamos as jogadas dela. É o mesmo encanto. É a mesma magia. Brilham os olhos. No final, aplausos, gritos entusiasmados, assovios, tudo junto.

Até mesmo o maior dos mágicos deve tirar a cartola para ela. O controle sobre a bola é feito de forma inexplicável. Como se tivessem nascido uma para a outra. Do diálogo entre pés e bola, nascem jogadas antológicas, que marcarão para sempre.

A matéria-prima da mágica é o sonho. A do futebol, também. E desde que nasceu essa Mágica no mundo da bola, as coisas nunca mais foram as mesmas. O gramado vira tapete vermelho quando ela joga; as redes vertem ambrosia quando ela faz gol; adversários se transformam em súditos e aplaudem de pé.

O mundo da bola se curva aos pés da alquimista que transforma ouro em sonho e melhor do mundo em sinônimo de Marta.

*reverências*


Se estiverem à procura de informações jornalísitcas sobre o fato, clique aqui.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Ave Franklin. Por BruneLLa França.

Quarto Poder, Conselho Federal de Jornalismo, blogosfera, um toque de futurologia e outras coisinhas mais

200 Anos de Imprensa no Brasil. Quase 200 no Espírito Santo. Para comemorar a data, um fórum com o objetivo de discutir comunicação. A iniciativa é muito boa, visto que a comunicação tem que ser discutida sim. Mas quando o debate é puxado pela maior empresa de comunicação do Estado, aí, óbvio, as coisas ficam mais parciais que de costume (se alguém ainda vier com aquele discurso de ‘imparcialidade’ da imprensa eu corto relações!).

Na primeira palestra, ouvimos o jornalista José Casado, de O Globo. A fala dele foi, desde o início, construindo a imprensa como a guardiã da democracia. Casado deu exemplos de casos como o do correspondente do New York Times, Larry Rother, que foi ameaçado de expulsão do País por uma matéria na qual ressaltava o gosto do presidente Lula por bebidas. A frase mais usada pelo jornalista durante sua fala foi: “A democracia não está integralmente consolidada no Brasil”. Para Casado, falta respaldar a democracia com a irrestrita liberdade de expressão.

Não cometerei a hipocrisia de dizer que sim, nós vivemos na democracia plena. Mas também não posso embarcar nessa defesa quase cega de que a imprensa é um dos pilares da democracia. Primeiro, há de diferenciar aqui duas liberdades que são usadas como sinônimos e não são. Liberdade de expressão é uma e liberdade de imprensa é outra.

A liberdade de se expressar é um direito personalíssimo, ou seja, individual e intransferível, pelo qual todos e todas têm direito, sempre respeitando a Constituição Federal (regrinhas básicas de convivência, como não caluniar, não difamar e não injuriar o próximo, nem fazer acusação sem provas estão descritas lá; quem quiser se arriscar, que arque com as conseqüências). Já a liberdade de imprensa está atrelada ao direito à informação, que também é um direito de todos e de todas.

Deixando esses pontos bem esclarecidos, podemos prosseguir. Lá pelo final da fala de Casado, foi aberta ao público a oportunidade de fazer perguntas. Uma delas questionava a posição do jornalista em relação à criação do Conselho Federal de Jornalismo. Não acredito que alguém que acompanhou toda a palestra dele pudesse ter dúvidas de que ele se pronunciaria contra.

Lembram-se da emblemática frase do Ministro da Propaganda da Alemanha nazista, Joseph Goebbels, "uma mentira contada mil vezes torna-se verdade"? Ela cabe bem no que eu quero expor aqui. A imprensa se auto-determinou o Quarto Poder. Produziu discursos que criam essa sensação e é defendida como tal. Acontece que a imprensa – e os jornalistas que dão corpo a ela, em sua maioria – tanto fizeram para passar o discurso que acabaram acreditando nele. E eis o problema!

Na República, o regime democrático vigente no Brasil hoje, temos os três poderes. E eles não vieram do nada. A Teoria dos Três Poderes foi consagrada pelo pensador iluminista francês Montesquieu. Baseando-se na obra Política, do filósofo grego Aristóteles, e na obra Segundo Tratado do Governo Civil, publicada pelo inglês John Locke, Montesquieu escreveu sua obra, O Espírito das Leis, traçando parâmetros fundamentais da organização política liberal adotada pelo Ocidente (é sempre bom situar o contexto tratado).

Montesquieu foi o responsável por explicar, sistematizar e ampliar a divisão dos poderes que fora anteriormente estabelecida por Locke. Pela obra do filósofo, é fundamental estabelecer a autonomia e os limites de cada poder. Criou-se, assim, o sistema de freios e contrapesos, o qual consiste na contenção do poder pelo poder, ou seja, cada poder deve ser autônomo e exercer determinada função, porém o exercício desta função deve ser fiscalizado pelos outros poderes. Assim, pode-se dizer que os poderes são independentes, porém harmônicos entre si.

Muito bem. Muito bonito. E onde entra a imprensa nisso aí. Entra e não entra. O Quarto Poder, como está hoje, não é fiscalizada por nenhum outro poder. Qualquer tentativa – não de fiscalizar, mas de regulamentar, como é a idéia do Conselho – é rechaçada sob a alegação de censura. A imprensa se coloca como um dos pilares da democracia sem ser, todavia, democrática. O auto-entitulado Quarto Poder se coloca e acredita estar acima de todos os outros e assim quer permanecer (ou alguém ainda acredita que o jornalismo hoje faz revolução? É muito mais fácil trabalhar para manter o status quo).

Após a fala de José Casado, tivemos uma mesa redonda sobre o futuro da imprensa. Compunham a mesa o professor doutor do curso de comunicação da Ufes, José Antônio Martinuzzo; a secretária de comunicação de Vitória, Ruth Reis; o diretor de telejornalismo da rede Gazeta, Carlos Tourinho e, como moderador, o diretor de redação de A Gazeta e Notícia Agora, Carlos Antônio Leite.

É claro que o tema principal foi a convergência de mídias, as mudanças que a internet está trazendo – sim, é no gerúndio mesmo! – para o campo da comunicação, as possibilidades e os desafios desse novo meio. Sempre cauteloso, o professor Martinuzzo puxou a reflexão lembrando que nós vivemos hoje o futuro do passado, damos os passos que alguém pensou bem antes de nós. Assim, fica mais fácil desenhar possíveis cenários, flexíveis sempre, porque a tecnologia avança cada vez mais rápido.

E foi aí que chegamos à blogosfera. Blogueiro é jornalista ou não é jornalista? A resposta aqui é bem clara – vou até usar o caps lock – NÃO, BLOGUEIRO NÃO É JORNALISTA. Antes que me chamem de puritana radical, continuem lendo, por favor. Blogueiro não é jornalista simplesmente porque blogueiro não é uma profissão, não vem de uma ciência, não é um saber-fazer. Blogueiro é aquele ou aquela que tem blog. Então blogueiro pode ser jornalista? Se o blog é de um jornalista, sim. Se não é, dificilmente.

Fato: o mundo não cabe na imprensa, no jornal (Oooooooooooooh! Pois é, sinto muito se o seu mundo caiu e a casinha do Bob também!). O jornal é um recorte, um ângulo de visão, um simulacro de realidade. Agora o mundo cabe na internet. É claro que se eu quero uma informação sobre uma banda eu terei muito mais num site ou num blog do próprio artista ou de um fã do que na imprensa. Motivo óbvio: o artista e o fã tem muito mais informações a respeito do trabalho dele do que o jornalista de um caderno de cultura e entretenimento por aí.

Agora, se eu quero saber alguma coisa sobre economia ou política, também posso procurar blogs de pessoas que escrevam sobre o assunto. Aqui vem uma coisinha chamada credibilidade (construída pela imprensa com aquele discurso furado de objetividade, neutralidade e imparcilaidade – mas foi tão bem feito que colou, fazer o que?!).

Sim, eu sei que o discurso jornalístico exerce uma grande influência na constituição da experiência coletiva de um real cotidiano. Sei também que o simples fato de um acontecimento estar inserido ou não no campo dos discursos jornalísticos implica em que faça parte ou não do repertório de atualidade do público. Resumindo, eu sei que o discurso jornalístico tem autoridade na sociedade (democrática ocidental, é bom deixar claro).

Mas isso não impede ninguém de querer – e poder – construir o seu próprio discurso, a sua própria mídia, a sua própria verdade no espaço blog. Será que só porque não é um jornalista – ou pretenso jornalista – postando aquilo que ali se escreve é uma deliciosa viagem na maionese? Mesmo em se tratando de campos que requerem um grau de análise e conhecimento maior, como a economia e a política?

Se vivemos partilhando um mesmo contexto, se vivemos todos num mundo capitalista, se somos todos seres pensantes, por que só quem está autorizado a falar, só quem tem credibilidade é o jornalista? Por que a sociedade assim determinou? Ou por que a imprensa assim determinou? (Lembram da discussão sobre o Quarto Poder mais acima? A-ha!)

Aqui podemos inserir a pausa para o coffee break. Após o debate, tivemos mais uma palestra, desta vez sobre assessoria de imprensa no mundo contemporâneo. Mas nada que os alunos de Martinuzzo já não tenham ouvido em aula. A palestrante só usou uma série de termos estrangeiros, dificultando a compreensão de todos e todas, ou seja, dificultando a comunicação (que coisa, não?)!

Eu só acrescentaria aqui o significado de stakeholders – quando a palestrante falou sobre isso, eu vi muita gente com mais cara de paisagem que nas outras palavras. Stakeholders – simplificando (é o espírito jornalístico!) – são os grupos de influência de uma organização.

Bem, o objetivo deste texto é fomentar o debate acerca de tudo que aqui foi abordado. Então, agora é a sua vez. Gritem, esperneiem, esbravejem nos comentários. Divirtam-se!



domingo, 16 de novembro de 2008

Ave Franklin. Por BruneLLa França.

Dialogus istranhus

Interlocutor pergunta:
- Bru, o que é o jornal pra você?

Bru responde:
*silêncio - não que eu não tenha o que responder, mas sim porque eu sempre prefiro pensar um pouquinho antes*
- O jornal... O jornal é uma babel quase vazia de sentido...

Interlocutor diz:
- Uau! Eu não esperava por isso! O jogo está ficando interessante! Quase vazia de sentido?

Bru responde:
- É. Não tem nenhuma crítica ali, nenhuma reflexão. Tudo bem que se cria a ilusão de que ao ler aquele jornal você fica bem informado, sabe do que aconteceu no mundo. Doce - ou amarga - ilusão! Os jornais estão mais preocupados em vender um mundo transparente, simples e perfeitmente acabado, em manter as coisas como elas estão... É uma questão de semiótica...

Interlocutor desprevenido fica em silêncio.
Silêncio.
Silêncio.
Mais um pouquinho de silêncio.
Finalmente, ele questiona:
- O que é semiótica?

Bru fala:
- Tem um livro da coleção primeiros passos com esse título, exatamente. O que é semiótica. É bem fácil de ler...

Interlocutor pergunta:
- Não tem como me adiantar o assunto?

Bru responde:
- Ok. Acomapnha o raciocínio. 
Qualquer ato comunicativo envolve a construção de sentidos, pois essa característica é própria da linguagem. O mundo, porém, não apresenta uma face legível que temos que decifrar apenas. A realidade - múltipla e complexa - não tem um significado anterior ao momento de sua verbalização e interpretação. Cada um dá sua forma a ela, entende? 

Interlocutor confuso:
- Ham... Não sei.

Bru esclarece:
- O que eu quero dizer é que o mundo em que vivemos, a realidade ou as realidades, os relacionamentos, os indivíduos são construções, da linguagem. Tudo é texto. Não no sentido de ser letrinhas juntas, mas da origem da palavra, tecido, tessitura.

Interlocutor confuso²:
- E cadê a sua semiótica?

Bru explica:
- Está aí! Eu disse que tudo é texto. É  a semiótica que estuda esses textos. O que está dito e o que se quer dizer no mundo, nas realidades, nos jonais. A semiótica é tudo (especialmente para Lele!), resumindo.

Interlocutor diz:
- Hum... Sabe, eu tava aqui pensando (uau!) No que você disse sobre o jornal... Mas você faz jornalismo!

Bru confirma:
- Eu estudo jornalismo. Sim, e daí?

Interlocutor pergunta:
- E você vai trabalhar no jornal?

Bru responde:
-Não necessariamente, mas é sempre uma possibilidade.

Interlocutor pergunta:
- O que é o Jornalismo, então?

Bru responde:
*silêncio para pensar*
- Numa síntese... A arte de parafrasear!

Interlocutor se indigna:
- Mas isso é fácil demais.

Bru joga um balde de água fria:
- É óbvio que não, meu bem.

Interlocutor em dúvida:
- Então, qual é o segredo?

Bru responde:
- Vocabulário chave, possíveis parafraseados chaves (não me refiro ao desenho!), e, é claro, COMO fazer a paráfrase! Ha ha ha! Mais uma vez, uma questão de semiótica!

Interlocutor se recolhe.


quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Ave Franklin! Por BruneLLa França.

O discurso da mudança ganhou os Estados Unidos

As desconfianças do mundo em torno do resultado da eleição estadunidense terminaram no anúncio de Barack Hussein Obama Jr, de 47 anos, como o mais novo residente da Casa Branca. Sim, os Estados Unidos da América elegeram o primeiro presidente negro da história do país. Quarenta e quatro anos após o fim da segregação racial, Obama é o 44º a assumir o governo daquela nação (recuso-me a fazer análises esotéricas aqui!).

Após dois longos – e duvidosos – mandatos de George W. Bush, os democratas voltam ao poder. Obama conquistou os eleitores com seu carisma e retórica. O primeiro presidente democrata a alcançar a maioria absoluta dos votos válidos. Não é pouco para um político considerado tão jovem, que sai do Senado diretamente para a Casa Branca.

O mais impressionante é como Obama conseguiu votação tão expressiva sendo um candidato de fora do establishment dos partidos. Nas primárias do partido, ele derrotou ninguém menos que a senadora Hillary Clinton, então favorita para disputar as eleições deste 4 de novembro.

O lema “Yes, we can” foi gritado por jovens, negros, brancos, mulheres. Uma verdadeira multidão assistiu ao discurso da vitória do jovem presidente na noite de ontem em Chicago.

A vitória de Obama foi nada menos que arrasadora. Ele venceu com folga no Colégio Eleitoral e no voto popular. E os estadunidenses ainda lhe deram maioria no Senado e na Câmara dos Deputados, um cenário promissor para o novo presidente. É claro que o desastroso governo de Bush contribuiu para a derrota dos republicanos. O fim da “era Bush” era quase um clamor dentro dos EUA. Outro fator que teve importante destaque na eleição foi / é a crise financeira que sacode o mundo e ajudou a sepultar as últimas chances de McCain.

A campanha de Obama também merece destaque. O trabalho de comunicação organizacional foi praticamente perfeito. A maior marca da campanha dele - e o motivo pelo qual a eleição americana não mais será a mesma - foi o uso revolucionário da internet para arrecadar nada menos que US$ 700 milhões e a utilização de diferentes canais de mídia para divulgar sua candidatura.

Os discursos feitos durante a corrida presidencial foram considerados brilhantes. Obama frisou que foi o único a se opor à guerra do Iraque desde o início e defendeu um cronograma de retirada das tropas, palavras que foram de encontro ao clamor do povo estadunidense.

Assolado pela crise financeira e desgastado pelo governo Bush, um discurso inflamado, cheio de esperança e proferido por um jovem candidato convocando o povo à mudança encontraram eco e apoio entre o eleitorado. O resultado quase não podia mesmo ser diferente.

Com o apoio do mundo, no dia 20 de janeiro Brack Obama assumirá o governo da (ainda) maior potência econômica e militar do planeta. E é claro que ele vai trabalhar para manter esse status. Fica a expectativa do COMO fará isso, já que, pelo perfil, Obama é contrário a guerras.

O mundo inteiro também aguarda as diretrizes do novo presidente para a economia. A questão de Cuba também é outro ponto a se prestar atenção. E o Brasil, bem, nós devemos ter uma dificuldade maior para exportar produtos para os EUA. A política protecionista deve se intensificar. O problema da imigração também deve ser tratado por Obama, mas, então candidato, esse tema não foi muito abordado durante a campanha.

O que não se pode negar é que para os Estados Unidos a eleição de Obama é, de fato, uma (r)evolução.

O discurso da vitória

domingo, 5 de outubro de 2008

Ave Franklin! Por BruneLLa França.

Em Colatina, a competência venceu o dinheiro

A chapa Leonardo Deptulski e Cirilo de Tarso (PT / PV / PPS / PMN / PMDB / PTB) começou a campanha com modestos 4% de intenção de voto. Hoje, dia 5 de outubro, alcançou 47.82%, segundo o Tribunal Regional Eleitoral do Espírito Santo (TRE-ES). Uma virada não esperada pelo candidato da outra chapa, Paulo Foletto (PSB / PSDB / PTC / PP / PSC / PR / PSDC), que começou a campanha com mais de 50% das intenções de voto.

Derrota não esperada também pelo governo do Espírito Santo. Apesar de o PMDB apoiar
a candidatura de Leonardo (PT) em Colatina, o candidato do governador Paulo Hartung (PMDB) era Foletto (PSB).

A figura central na vitória da coligação Colatina no Rumo Certo não veio do Palácio Anchieta nem do Senado Federal. A figura central na eleição de Colatina foi o atual prefeito, Guerino Balestrassi (atualmente sem partido).

Fiel ao projeto político traçado para o município, Guerino não apoiou a candidatura do atual deputado estadual, Foletto, à prefeitura de Colatina. Ele sabe o quanto é importante ter representatividade na Assembléia Legislativa do Estado para dar suporte ao plano de desenvolvimento estratégico da cidade.

Mas Guerino também sabia da competência de Leonardo para administrar Colatina. Deptulski foi o Secretário de Planejamento durante o primeiro mandato de Balestrassi (2000-2004). E depois entrou como vice no segundo mandato do atual prefeito (2004-2008).

O plano de desenvolvimento sustentável de Colatina 2000-2025 foi elaborado sob a coordenação de Leonardo, então secretário. As obras, as melhorias na infra-estrutura somadas à transparência e à ética da administração recolocaram a cidade na rota de investimento de grandes empresas e devolveram a Colatina posição de destaque na logística da economia do Espírito Santo.

Sob o governo de Balestrassi, a educação municipal ganhou destaque. Guerino, por suas ações sociais, ganhou da Unicef o selo de reconhecimento de Prefeito Amigo da Criança. Em 2004, com o projeto de inclusão social de ex-detentos, a Prefeitura Municipal de Colatina (PMC) ganhou o Prêmio Direitos Humanos, promovido pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos do Governo Federal. No projeto de recuperação da Bacia do Rio Doce, o atual prefeito foi eleito por aclamação pelos outros prefeitos do Estado, nas duas eleições, para assumir a presidência do conselho que gerencia os trabalhos no Espírito Santo.

Esses são só alguns exemplos do que a atual administração fez por Colatina. Nossa cidade estava abandonada. A prefeitura, loteada por políticos que se preocupavam muito mais com suas carreiras e seus parentes do que com a população do município. Guerino se candidatou como uma alternativa a velhas práticas políticas na cidade. Venceu. E, por sua competência, convenceu os eleitores a lhe darem um segundo mandato.

As obras feitas, as melhorias no sistema educacional do município, na saúde e em todas as áreas são a parte visível do que foi feito e está sendo feito por Colatina. Mas o maior legado de Guerino, o Guerreiro, é ter devolvido à população do município o orgulho de ser colatinense. Balestrassi foi, portanto, a peça fundamental na vitoriosa campanha de Leonardo e Cirilo.

Foletto, por sua vez, fez ataques pessoais ao atual prefeito, mas se mostrou incompetente para conquistar a confiança da maioria da população. O candidato dispunha de muito mais dinheiro, fez uma campanha rica, com grandes patrocinadores. O deputado tinha ainda o apoio declarado do Palácio Anchieta. Tanto de Hartung, quanto do possível candidato a governador em 2010, o hoje vice, Ricardo Ferraço (atualmente sem partido).

A princípio, a vitória do PT em Colatina não é uma derrota do governo do Estado. Apenas a princípio, numa leitura rasa. Analisando o novo desenho político do Espírito Santo, nasce, das prefeituras, uma potencial força de oposição ao governador. A coalisão partidária que deu dois mandatos a Hartung não se manterá em 2010. Dois cenários de oposição são possíveis. Um com uma candidatura do PT, que sai fortalecido com os resultados das eleições – fazendo eco ao cenário nacional –, e outro com uma coalisão contrária às forças do governo atual.

Se antes das eleições municipais era quase certo que o próximo governador do Espírito Santo sairia de uma reunião numa salinha do Palácio Anchieta, hoje, é fato, essa certeza não existe mais.


Resultado das eleições Colatina 2008 - votos válidos
Leonardo (PT) 47.82%
Foletto (PSB) 41.03%
Josias da Vitória (PDT) 7.82%
Décio Rezende (PSOL) 3,33%

Fonte: G1.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Bem senhoras e senhores. Por BruneLLa França.

Bem senhoras e senhores, como explicar o inexplicável? No Estádio dos Trabalhadores em Beijing, lágrimas. A Seleção Brasileira de Futebol Feminino perdeu a final para os Estados Unidos por 1 a 0. Gol marcado aos seis minutos da prorrogação. Um resultado injusto.


Nenhuma derrota do Brasil nas Olimpíadas doeu tanto quanto essa. Começamos respeitando as adversárias e elas a nós. A equipe estadunidense chegava com dois ouros olímpicos (1996 e 2004) e dois mundiais (1991 e 1999). As nossas meninas chegavam com o futebol arte, com o melhor toque de bola entre as seleções femininas e os maiores talentos individuais da atualidade: Marta e Cristiane.


Criamos chances sim. Marta, velocista e habilidosa, saiu do meio de duas, três, quatro. Mas não havia ninguém na área, ninguém chegando para finalizar. Ela também driblou, chegou, chutou, mas não podia fazer tudo sozinha. Nenhuma outra jogadora lutou tanto, acreditou tanto quanto a camisa 10.


Cristiane se movimentou muito na frente, abriu espaço na defesa. O meio de campo, porém, não apareceu. Faltou a ligação tão imprescindível num time de futebol. A ligação com a qual elas estão acostumadas a jogar. Mesmo assim, jogamos no campo de ataque dos Estados Unidos quase o tempo todo. E se há um nome que deva ser destacado na seleção adversária é o da goleira Hope Solo. Ela defendeu um chute de Marta quando o grito de gol já ensaiava sair.


No segundo tempo, as estadunidenses chegaram apenas duas vezes, com perigo, é verdade. E Bárbara estava lá para defender. Veio a prorrogação, vieram os 30 minutos que poderiam definir a medalha. Poderiam porque em caso de novo empate, iríamos para os pênaltis. Não foi preciso. Uma falha de marcação da defesa brasileira e a bola foi parar no fundo da nossa rede.


Nem o gol abateu a seleção. As meninas foram mais para cima ainda. E a bola, caprichosamente, não entrou. Marta (três vezes), Cristiane (duas vezes), Renata Costa, Erika, Fabiana. Todas elas chegaram perto, todas elas passaram junto à trave. E a bola saiu. Mesmo num campo pesado pela chuva, desgastado pela partida anterior, elas correram, marcaram, superaram os limites possíveis do corpo.


Eu, que sempre me recusei a usar uma máxima exaustivamente repetida no esporte, hoje me rendo à ela: não era para ser. Dói ver as lágrimas em rostos que mereciam sorrisos. Dói conquistar uma prata sabendo que podíamos, que merecíamos, o ouro. Dói ser a segunda melhor selação feminina nas olimpíadas.
A torcida chinesa, que torceu pelas nossas meninas como se fossem brasileiros, aplaudiu, ovacionou nossas atletas enquanto elas choravam no pódio, inconformadas com o segundo lugar. Faltou o detalhe do gol. Faltou a finalização milimetricamente precisa. Mas a exibição a que assistimos não deixa dúvidas de que a seleção feminina é sim a melhor seleção do mundo. Continua faltando um degrau. Continua faltando um grande título. Mas não há dúvidas de que elas podem conquistá-lo.


Quero terminar este texto discordando de uma frase dita por Marta ainda antes de começarem os Jogos. A melhor do mundo foi apontada pela revista Times (EUA) como uma das 100 maiores estrelas das Olimpíadas. Única atleta brasileira na lista. Ao ser questionada sobre a sensação de ser uma das grandes estrelas, Marta respondeu: “A seleção brasileira num todo é uma estrela só. A Marta só não é uma estrela”.


Escrevo aqui meus louvores à humildade da melhor jogadora do mundo. Mas discordo dela. Ousadia minha? Talvez. Mas é preciso dizer que a Seleção Brasileira Feminina de Futebol não é uma estrela só. É uma constelação de 18 estrelas. Andréia Suntaque e Bárbara (goleiras); Andréia Rosa, Renata Costa, Tânia Maranhão e Erika (zagueiras); Simone Jatobá, Rosana e Maycon (laterais); Formiga, Daniela Alves, Francielle, Ester (meias); Pretinha, Fabiana, Maurine, Cristiane e Marta (atacantes). E o brilho delas é muito maior que o da medalha de prata.


Fica a tristeza sim. Mas fica ainda mais forte a admiração pelo que fazem essas meninas com a bola nos pés. Como jogam! Como encantam! Como se superam! Deixo aqui minha reverência a essa seleção brilhante e agradeço por nos proporcionarem o espetáculo que é vê-las jogar. Parabéns meninas. Vocês são muito mais valiosas que a medalha que carregam no peito!


segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Bem senhoras e senhores. Por Brunella França.


SÓ
FALTA UM!


Era para ser uma pedreira. E foi. Pelo menos no primeiro tempo. Começamos perdendo. Aquela vantagem no placar para a Alemanha assustou e desestabilizou a seleção brasileira. A força parecia que iria vencer o talento. Defesa desatenta, as alemãs chegavam com facilidade e poderiam ter liquidado o jogo caso suas atacantes tivessem sido mais eficientes.

Mas, na metade do primeiro tempo, o Brasil colocou a bola no chão. Que pesadelo para as adversárias quando isso acontece. Enquanto a maioria das outras jogadoras toca a bola de primeira, tentando se livrar logo da responsabilidade, as meninas do Brasil têm uma intimidade muito especial com ela.

Fomos avançando em campo, ganhando espaço. As triangulações com Daniela, Cristiane e Marta começaram a aparecer. E, no final do primeiro tempo, a igualdade. Jogada de Cristiane na lateral, Marta não chegou na bola e, meio sem querer, acabou ajeitando para Formiga mandar pro fundo da rede. O primeiro gol sofrido pelas alemãs nas Olimpíadas de Beijing. Elas sentiram o baque. Nós ganhamos confiança. Crescemos em campo e tomamos a iniciativa do jogo. O primeiro tempo se foi.

Era preciso manter o mesmo ritmo, a mesma vibração. Era preciso sorrir. E como sorrimos! Logo nos minutos iniciais, a Alemanha foi para o ataque e deixou três defensoras contra Marta, Cristiane e Érika. A nossa pequenininha velocista chegou perto da área, levantou a cabeça e, com os pés, disse para Cristiane: “faz”. E ela fez. De primeira. Um toque lindo, colocado. Passamos à frente das campeãs mundiais. Entregamos a elas, que há muito não sabiam o que era perder, a responsabilidade de sair para o jogo.

E nossas adversárias foram para cima. Não se entregariam. E na segunda bola que cortamos, sobrou para Daniela no meio de campo. Dani viu Marta passar pela lateral e tocou quando ela já estava mais perto da área. A melhor do mundo ganhou na corrida e, na saída da goleira Angerer, tocou de ponta de pé. Gol com assinatura da camisa 10.

O Brasil estava solto em campo. As meninas sorriam. A defesa firme. O meio aparecendo bem. Bárbara, nossa goleira, segura na meta. A pergunta a essa altura do jogo era: como parar Marta e Cristiane? As alemãs pareciam ter faltado a essa aula. E nossas atacantes seguiam enlouquecendo a defesa adversária. Sem esquecer as chegadas de trás de Daniela.

A treinadora alemã fez substituições, mandou o time para frente. E nós? Segurando na defesa, partindo para o contra-ataque. E assim nasceu o quarto gol. Cristiane recebeu o passe no meio de quatro – eu disse QUATRO – marcadoras alemãs. Com a intimidade de quem nasceu para jogar futebol, a bola parecia não querer sair de perto de seu pé. Com dribles rápidos, nossa atacante saiu na cara do gol. As quatro alemãs ficaram assistindo a brasileira bater para o gol e sair para a dancinha da comemoração. Que lindo!

As invencíveis alemãs perderam. Nossa primeira vitória contra as campeãs do mundo foi com V maiúsculo. Poderíamos ter feito ainda mais gols, mas quatro estava bom. Bom? Parecia um sonho.

Eu havia dito que deixamos para ganhar delas na hora decisiva. Ganhamos? Não só. Demos show! O talento venceu a força mais uma vez. Hoje jogamos com conjunto. Defesa, meio-campo e ataque se movimentando harmonicamente (desconto para os 25 minutos iniciais). Hoje jogamos como a melhor seleção do mundo (a falta de um título oficial não me descredencia a fazer essa afirmação).

O estádio cheio gritou Brasil mais uma vez. A torcida alemã aplaudiu nossas meninas. Como não aplaudir? Como não se encantar por esse time que joga, que conversa com a bola, que dança, pinta, faz arte? No jogo de hoje, as meninas não venceram apenas (!) a Alemanha, venceram a si mesmas.

Vamos mais uma vez para a final olímpica, repetindo o feito de Atenas, há quatro anos. Naquela oportunidade, ficamos com a prata. Desta vez, queremos ouvir o Hino Nacional ecoar no Ninho do Pássaro. A data está marcada. Será dia 21, quinta-feira, às 10 horas (horário de Brasília).

Na contagem regressiva, só falta um!




P.s.: alguém ainda duvida que a nossa Cristiane é muito melhor atacante que a alemã Birgit Prinz?
Quem responder que sim, favor argumentar muito bem!

Ficha técnica: Brasil 4 X 1 Alemanha

Bárbara, Érika, Renata Costa e Tânia Maranhão; Simone Jatobá, Daniela Alves (Francielle), Formiga, Ester e Maycon; Marta e Cristiane (Fabiana). Nadine Angerer, Kertstin Stegemann, Annike Kranh, Babett Peter, Ariane Hingst; Melaine Behringer (Fatmire Bajramaj), Renate Lingor, Simone Laudehr, Kerstin Garefrekes; Birgit Prinz e Anja Mittag (Celia Okoyino da Mbabi).
Técnico: Jorge Barcellos. Técnico: Silvia Neid.
Gols: Birgit Prinz, aos 9 do primeiro tempo; Formiga, aos 43 do primeiro tempo; Cristiane, aos 3 do segundo tempo; Marta, aos 7 do segundo tempo; Cristiane, aos 30 do segundo tempo
Cartões amarelos: Renata Costa, Marta (BRA); Simone Laudehr (ALE)
Estádio: Estádio de Xangai, na China. Data: 18/08/2008. Árbitra: Eun Ah Hong (COR). Auxiliares: Sarah Ho (AUS) e Hsiu Mei Liu (FOR).


sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Bem senhoras e senhores. Por Brunella França

Só faltam dois!

Bem senhoras e senhores, contagem regressiva. A Seleção Brasileira de Futebol Feminino está a dois jogos da medalha de ouro, objetivo das meninas nas Olimpíadas de Beijing. Depois de passar em primeiro na fase de grupos, dividindo a mesma chave com a atual campeã mundial Alemanha, as brasileiras derrotaram as norueguesas, que conquistaram o ouro em Sidney, 2000. Vitória de 2 a 1 e vaga nas semifinais contra a Alemanha – que venham elas!

No primeiro confronto da força versus o talento, vencemos. Ainda não tivemos uma atuação no mesmo nível da Copa do Mundo 2007, na mesma China, quando a seleção foi superior às adversárias durante toda a competição, mas acabou perdendo o título na final para as alemãs. O jogo desta sexta-feira(15) já foi melhor. A entrada da meia-defensiva Estér deu mais estabilidade à defesa do Brasil e liberou Maycon para apoiar mais na lateral esquerda.

Aliás, foi por aquele setor do campo que o time criou mais oportunidades. As jogadas trabalhadas saíram. Daniela Alves se movimentou mais. Cristiane e Marta jogaram juntas, buscaram uma à outra em campo, trabalharam a bola no ataque. Tudo bem que nenhum dos gols do Brasil saiu de uma jogada assim. O primeiro, no finzinho do primeiro tempo, foi um chute belíssimo de Daniela que não deu chance de defesa para a goleira nórdica. Gol de placa!

O segundo saiu de uma bola mal recuada pela defesa da Noruega. Marta acompanhou a zagueira e chegou na bola antes da goleira. Com a categoria de melhor do mundo, deu um tapa na bola por cima da goleira e saiu para comemorar. A Noruega saiu mais para o jogo e deu mais espaço para as jogadas brasileiras. Tivemos boas chances. Faltou um pouco mais de capricho nas finalizações de Cristiane. No final do jogo, a goleira Bárbara fez um pênalti desnecessário e as norueguesas diminuíram. Mas não chegaram a assustar.

O mais importante desse jogo não foi a vitória – calma, não enlouqueci. É claro que eu sei que se perdêssemos estaríamos fora da competição. O importante foi como veio essa vitória. Explico: o mais importante desse jogo foi a alegria. As meninas sorriam em campo. Elas gostaram do jogo. Elas se encontraram no jogo. Ainda há o que melhorar? Sempre! Mas elas estão prontas, querem o ouro que lhes foi tirado em Atenas, querem mostrar ao mundo e, principalmente, ao Brasil, a força do futebol feminino. É a consolidação das mulheres também nessa modalidade esportiva.

Uma missão para verdadeiras guerreiras. A pátria das chuteiras está se acostumando a ver o futebol arte em pés mais delicados. O próximo jogo, segunda-feira, será mais uma vez contra as alemãs. Eu acredito que elas guardaram a vitória para o momento decisivo. Mais um teste para o talento. Mais um jogo contra a força. Que vençamos nós!

domingo, 10 de agosto de 2008

Bem senhoras e senhores. Por Brunella França

Seleção Brasileira Feminina de Futebol


Bem senhoras e senhores, as Olimpíadas de Beijing 2008 começaram. Uma abertura emocionante. Linda. Mas, antes, no dia 6 de agosto, entraram em campo as meninas do futebol. Logo de cara, a Alemanha. Um empate sem gols. Um jogo nervoso. Elas nos venceram na final da Copa do Mundo, ano passado, na China. Queríamos a vitória, mas não foi dessa vez. Paciência.

E veio o segundo jogo. E veio uma seleção finalizando melhor. Fez gols. Dois. Marta e Daniela Alves. Aliás, a jogada da melhor do mundo foi de encantar até mesmo os leigos no futebol (sim, caríssimos leitores, estou me contendo para não abrir a torneirinha de adjetivos). Tomamos um gol bobo no final, falha de marcação da zaga brasileira. Mas somos líderes do grupo, à frente da Alemanha nos gols marcados (2 contra 1 - a Alemanha venceu a Nigéria por 1 a 0).

O que eu posso dizer até agora é que a seleção ainda não se soltou. A bola quase não chega para Cristiane e Marta. Precisamos acertar o meio-campo do time se queremos mesmo conquistar a medalha. Não se ganha o ouro olímpico jogando "para o gasto". A conexão defesa - meio-campo - ataque tem que funcionar. Afinal, o forte do nosso time é a qualidade no toque de bola. Essas meninas jogam MUITO! Formiga e Maycon têm que aparecer mais no time. As laterais Simone e Rosana têm que apoiar mais.

Observei também que a equipe não está compacta em campo. Existem buracos. Falha de movimentação. A impressão que tenho é que o time está pesado dentro de campo. Ainda não conseguimos jogar fluentemente, como na última Copa do Mundo de Futebol Feminino. Mas eu acredito no talento desse time. Sei que elas ainda vão flutuar em campo e tenho fé de que trarão a tão sonhada medalha de ouro olímpica para o futebol brasileiro.

Elas sabem que podem!

terça-feira, 1 de julho de 2008

Ataque à liberdade! Fansubbers, fanfics, tradução de mangas e redes P2P podem se tornar crimes!

Ao aprovar o projeto Substitutivo ao PLC 89/2003, PLS 137/2000 e PLS 76/2000, redigido pelo Senador Azeredo, a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara quer transformar milhares de internautas em criminosos.

O Senador Azeredo quer tornar uma das atividades mais criativas da Internet em ato criminoso. Quer transformar os fansubbers, os fanfictions e a tradução de séries de TV em crime. O Senador considera que traduzir um Mangá é um crime tão grave como invadir um banco de dados e subtrair dinheiro de um aposentado.

Milhares de jovens e adultos participam de grupos de Fansubbers traduzem animes (desenhos animados) do japonês para o português. Eles legendam estes desenhos e distribuem gratuitamente pela rede. Trata-se de um fenômeno mundial e muito popular no Brasil. Jovens, Advogados, médicos, engenheiros, universitários, com idade entre 16 e 35 anos, serão considerados criminosos assim que o Substitutivo do Senador Azeredo for aprovado no Plenário.

Além dos fansubbers, o Senador Azeredo quer colocar na prisão também os criadores de Fanfics ou Fanfictions. São ficções criadas por fãs de uma série de TV ou cinema qualquer. Pessoas comuns fazem o que Walt Disney fez com os Irmãos Grimm, recriam seus contos e estórias, mas fazem por hobby, sem intenção comercial. O fanfic são contos ou romances escritos por quem gosta de determinado filme, livro, história em quadrinhos ou quaisquer outros meios de comunicação. Somente um dos sites mais interessantes de Fanfic em português, criado em novembro de 2005, conta com aproximadamente 7,511 histórias (24,081 capítulos e o impressionante total de 37,620,962 palavras). Este site e centenas de blogs estarão na mira do substitutivo do Senador Azeredo.

Isto porque ninguém poderá usar nenhum arquivo sem a expressa autorização do seu autor. O artigo 285-B do Substitutivo do Senador Azeredo diz que será considerado CRIME:

"Obter ou transferir dado ou informação disponível em rede de computadores, dispositivo de comunicação ou sistema informatizado, sem autorização ou em desconformidade à autorização, do legítimo titular, quando exigida:
Pena – reclusão, de 1 (um) a 3 (três) anos, e multa.
Parágrafo único. Se o dado ou informação obtida desautorizadamente é fornecida a terceiros, a pena é aumentada de um terço."

Como bem afirmou o jurista Lawrence Lessig, a criatividade estará em perigo se substituirmos a cultura da liberdade pela cultura da permissão. O Senador Azeredo com o artigo 285-B pretende criminalizar uma das principais características da cibercultura que é o remix, que são as práticas recombinantes. Azeredo quer bloquear uma das principais condições para a criatividade que é a reciclagem de idéias, a possibilidade de compartilhar bens culturais.

Será que todos os Senadores brasileiros sabem que eles irão considerar criminoso um jovem que baixa um capítulo da série Lost para traduzi-la, inserir a legenda em português, para distribui-la gratuitamente em redes P2P? Não é possível que eles considerem o ato de solidariedade do jovem, ao distribuir gratuitamente o vídeo legandado, como algo que exija o aumento de sua pena em "um terço".

Será que nossas cadeias precisam de gente criativa? O que este artigo 285-B tem a ver com o combate a pedofilia? Trata-se de uma agenda oculta? Será que nossas Casas legislativas querem criminalizar a cibercultura?


O PARECER do senador Azeredo pode ser obtido no endereço:
http://webthes.senado.gov.br/sil/Comissoes/Permanentes/CCJ/Pareceres/PLC2008061889.rtf

Fonte: blog do Sergio Amadeu

Agradecimento

Na mitologia Grega, conta-se, Orfeu tocava a lira de Apolo e conseguia tranqüilizar animais e seres humanos, emitindo vibrações de paz aos lugares por onde andava. Nunca ouvi a lira de Apolo, nem mesmo conheci Orfeu. Mas a vibração de paz, a tranqüilidade, eu conheço. E sempre as encontro em palavras que vêm, geralmente, por dois domingos de cada mês numa página de jornal. Também é Lyra quem escreve as palavras que são carinhos na alma!

Sorriso que acolhe, abraço que cura todas as dores do mundo. Senti-me adotada desde a primeira vez que a vi, ainda caloura na Ufes. Eu já conhecia os textos e já era apaixonada por eles. Crônicas, romances, poesia.

Foi numa tarde de primavera e flamboyant florido que pela primeira vez a encontrei. Brilharam meus olhos, enterneceu-se o coração. E era preciso falar, falar, falar para todo mundo ouvir: nossa Lyra é vezes sem conta mais encantante que a do deus grego.

Dizem-na uma Clarice Lispector menos louca. Digo ser sublime cada palavra, texto que nasce por suas mãos. E não há pessoa mais doce para se conhecer nesse mundo. E é por isso que Bernadette eu quero ser quando crescer.

"As Bernadettes"

domingo, 29 de junho de 2008

De amor e de letras. Por BruneLLa Wyvern.

•.¸¸.ஐAs seis meninas

Quando duvido de minha existência, belisco-me. Essa frase é do Dalai Lama. Tem um eficaz sentido, porque que ela, em sua simplicidade, nos diz que a existência é de uma comprovação inegável, e que o niilismo é uma grande besteira inventada por certos filósofos que odeiam o corpo e bem que gostariam de ser a pura essência para não ter de conviver com as demais criaturas. O fato é que a gente existe. Em carne, sangue, nervos, veias, suor, dejetos e tudo o mais que nos dá a condição de haver nascido.

Existir assim, de modo tão palpável, tem suas desvantagens, como a dor de cabeça, a dor de uma rasgadura no joelho, a dor do envelhecimento, a dor da paixão não correspondida e outras dores tais. Porém, tem suas vantagens também. Por exemplo, quando, de repente, as narinas capturam um perfume de sabonete na curva de um braço ou quando um gosto de mel temperado com flor de laranjeiras adoça a ponta da língua, ou ainda quando uma imagem que se abre diante dos olhos faz bater mais forte o coração.

Nesse quesito último, na semana passada, tive uma experiência. Recebi, de uma comunidade do Orkut, uma fotografia de seis estudantes de jornalismo da Ufes. Seis meninas bonitas, com jeito de inteligentes. Todas elas sorrindo e com aquele ar de quem está de bem com a vida. Alguém que as conhece, com gentileza, ainda me esclareceu que elas têm bom humor, criatividade, alegria e formam um grupo seleto de estudos e de companheirismo. Essas garotas, tão jovens e tão cheias de graça, se chamam Brunella, Damiana, Gabriela, Roberta, Shamylle e Simone. No entanto, estava na foto e elas fazem questão de serem conhecidas como: “as Bernadettes”.

Confesso, amados leitores, que tive uma pontada de contentamento. Além disso, fiquei toda boba, toda cheia de mim. Imediatamente, dei uma espanada nas sombras que o mês de junho andava espalhando sobre minhas idéias. Sim, porque junho me foi um mês difícil, de mortes e de perdas, de frio e de pequenos temores. No entanto, bastou-me olhar aquela foto, tão clara, tão exata, tão plena do futuro como um raio de sol entre as trevas, para que o meu cérebro começasse a descongelar.

Afinal, foi como o beliscão de que fala o Dalai Lama, acima. Agradeço a delicada homenagem dessas meninas, sobretudo porque, através delas, percebi que nós, humanos, somos o que fazemos. E tudo o que fazemos, mais cedo ou mais tarde, deixa um rastro na totalidade do mundo.

Bernadette Lyra
Texto publicado no Caderno 2 de A Gazeta em 29 de junho de 2008.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

A venenosa. Por Simone Azevedo.

Segura que esse mico é seu

Os maiores micos da sua vida é a sua mãe quem te faz pagar? Quase sempre ela te deixa de cara vermelha e com vontade de ser tragado pela terra? Se a resposta foi sim, Os Micos da Mamãe foi feito especialmente para você. Se a resposta foi não, Os Micos da Mamãe também foi feito pensando em você. Afinal, se a mulher da sua vida ainda não fez você pagar um mico inacreditável, isso é só uma questão de tempo.

Ainda assim, suponhamos que ela nunca faça isso (um sonho utópico), ao menos você dará boas gargalhadas com uma ótima coletânea de mini-contos. Rir da desgraça alheia é bom demais!
A autora, Gabriela Zorzal, reuniu histórias hilárias e, acreditem, bizarras de pessoas dispostas a compartilhar os piores (para nós, leitores, os melhores!) micos das suas vidas. O resultado foi uma comédia deliciosa do começo ao fim.

Eu sei que você, leitor atento, percebeu algo familiar no nome da escritora. Sim, ela é da turma que escreve este blog. Imagino que você esteja me chamando de puxa-saco. Mas, fica uma dúvida: eu sou mesmo puxa saco, ou o livro é realmente bom? Você, pessoa inteligente, vai ficar com essa dúvida até quando?

terça-feira, 24 de junho de 2008

Pais, filhos e gays


A busca de super-homens é uma quimera longa e trágica na história Humana

SERÁ POSSÍVEL escolher as preferências sexuais de um filho? Não, não falo de preferências por ruivas, loiras ou morenas. A questão, levantada pela cibernética "Slate", vai mais fundo: será possível mexer na base neurobiológica de uma criatura e "reprogramá-la" para ela gostar do sexo oposto?

Talvez. Conta a "Slate" que longe vão os tempos em que a homossexualidade era encarada como escolha pessoal ou produto do meio. A homossexualidade é um fato natural -como a cor dos olhos, a pigmentação da pele-, e estudos recentes apóiam a tese ao mostrarem diferenças visíveis no cérebro de homos e héteros.

Parece que os gays têm cérebros muito semelhantes aos das mulheres hétero. E parece que as lésbicas têm cérebros muito semelhantes aos dos homens hétero. Mas os estudos não ficam restritos a esse retrato. Os cientistas dão um passo além e sugerem que importantes influências hormonais, durante e pouco depois da gestação, determinam a constituição neurobiológica do indivíduo. E, se os hormônios desempenham papel principal, abre-se a porta prometida: "reorientar" os hormônios, "reorientar" a preferência sexual do bebê.

A possibilidade recebe aplausos. A Igreja Católica, confrontada com tal cenário, esquece a sua própria doutrina sobre os limites da manipulação médica e apóia decididamente a busca de uma "terapia" capaz de "curar" a "doença" homossexual.
Mais impressionante é a opinião da maioria: questionada sobre a possibilidade de conhecer a orientação sexual do filho por meio de um teste pré-natal, a generalidade não hesitaria em recorrer ao aborto ou à "reprogramação" caso a sexualidade da criança apontasse para o lado "errado". No fundo, quem não salvaria um filho do preconceito social ou da "doença" homossexual?

Fatalmente, a questão é desonesta. Aceitar as premissas do debate lançado pela "Slate" - aceitar, no fundo, que, por meio da ciência, é possível reverter a orientação sexual de um ser humano - é aceitar, implicitamente, que a homossexualidade é uma doença. E, aceitando-o, permitir que a medicina a trate exatamente como trata qualquer doença.

A realidade não legitima a fantasia. A síndrome de Down ou a espinha bífida, por exemplo, são doenças no sentido mais básico do termo: elas impedem que um ser Humano tenha uma vida plena. Podemos discutir se a medicina deve e pode "manipular" genética ou biologicamente uma vida Humana para erradicar esses males. E podemos discutir se esses males legitimam a interrupção da gravidez.

Mas essas discussões são distintas do problema inicial: reconhecer a Down ou a espinha bífida como fatores objetivamente incapacitantes de uma vida normal.
A homossexualidade não é uma doença. Pode ser motivo de preconceito social, dificuldade relacional, neurose pessoal -mas não é impeditiva de um funcionamento pleno do indivíduo nem põe em risco a sua sobrevivência futura.

Nada disso significa, porém, que não exista uma base neurobiológica capaz de explicar a orientação sexual. É possível e até provável. Exatamente como é possível e provável que certas propensões da personalidade humana -para a depressão, para a liderança, para a criatividade- estejam já inscritas na nossa natureza.

Mas isso não autoriza a medicina a procurar o paradigma do Super-Homem, dotado da dosagem certa de Humor, capacidade de chefia, talento para a pintura e para o sapateado. A busca de super-homens é uma quimera longa e trágica na história Humana.
Resta a questão final: e os pais? Confrontados com a possibilidade de "reprogramarem" a orientação sexual de um filho ou de descartarem-no via "aborto terapêutico", terão os pais o direito de pedir à medicina esse instrumento seletivo e subjetivo?

Aceitar essa possibilidade é aceitar que, no futuro, os pais poderão determinar a vida futura dos filhos. Escolher a orientação sexual; o temperamento; a vocação intelectual; a excelência atlética ou estética.

Não duvido que a maioria, confrontada com tal hipótese, reservasse para a descendência o cruzamento ideal entre Brad Pitt, Albert Einstein e Pelé.
Mas um tal gesto seria uma tripla violência: contra a medicina e a sua função especificamente curativa; contra o mistério e a diversidade da vida humana; mas também contra os próprios filhos, condenados a habitar vidas que não lhes pertenceriam, mas que foram desenhadas pela vaidade, soberba e tirania de seus progenitores.

Texto: João Pereira Coutinho
Fonte: Folha de São Paulo Online, 24/06/2008.
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2406200820.htm
Para ler, tem que ser assinante.

Minha opinião
Isso é deplorável! Sinto uma revolta tão grande quando leio uma barbaridade como essa. No momento, Alanis traduz melhor do que eu o que sinto.



De vez em quando nunca é o bastante / Se você é impecável, então ganhará meu amor / Não esqueça de tirar primeiro lugar / Não esqueça de manter aquele sorriso em sua face

Seja um bom menino / Tente um pouco mais / Você tem que se impor / E me fazer orgulhosa

Quanto tempo antes de reparar? / Quantas vezes tenho que lhe dizer para se apressar? / Com tudo que faço por você / O mínimo que você pode fazer é ficar quieto

Seja uma boa menina / Você tem que tentar um pouco mais / Aquilo simplesmente não foi bom o bastante / Para nos orgulharmos

Viverei de acordo com você / Farei de você o que nunca fui / Se você é o melhor, então talvez eu também seja / Comparado com ele, comparado com ela / Estou fazendo isto para seu próprio e maldito bem / Você compensará tudo que sofri / Qual é o problema... por que está chorando?

Seja um bom menino / Force um pouco mais agora / Aquilo não foi rápido o bastante / Para nos fazer feliz / Nós te amaremos pelo que você é, SE VOCÊ FOR PERFEITO

E você, o que acha disso? COMENTE!

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Bem senhoras e senhores. Por Brunella França

Depois de um longo período sem nada produzir para o Jota-I, cá estou eu novamente. E, novamente, porque preciso falar de futebol. Acabo de assistir à partida Brasil X Argentina pelas Eliminatórias da Copa de 2010. O resultado jogo - empate sem gols - não é lá tão importante para o que quero escrever.

Desde já, assumo o risco de ser apedrejada pelos corredores dos Cemunis da Ufes e de ver o meu pai descontente com este texto. Estou aqui porque quero falar da Argentina. Não amigos - ou hermanos -, não está escrito errado, vocês estão lendo corretamente. Para desgosto daquele que me ensinou tudo de futebol, neste coração verde-amarelo (torço fervorosamente pela seleção feminina de futebol), há um lugar todo especial reservado ao azul celeste da camisa argentina.

Eu gosto do futebol argentino, da garra, da qualidade do toque de bola, da forma como o time se coloca em campo, de ver onze jogadores jogando numa espécie de um por todos e todos para um.

E estou aqui para dizer que não consigo admitir que a seleção que há tempos - mesmo que não tenha ganho nenhum título -, em conjunto, é a melhor seleção do mundo, seja tão mal treinada e mal escalada. Desculpem-me, mas pela qualidade de jogadores que a Argentina tem é inadimissível que Alfio Basile continue sendo técnico desta equipe. Ele consegue ser pior que o Dunga!

Irritou-me ver a camisa 9 da azul celeste ser entregue a um jogador tão grosso e pouco hábil, como é Julio Cruz. Onde estavam Palermo, Palacio, Tevez, Aguero, Saviola? Por que essa insistência burra de colocar Messi para jogar fora de sua posição em campo? Assim não dá! Menos mal que a meta argentina continua muito bem guardada por Abbondanzieri.

E em meio a todo meu descontentamento, só continuei assistindo àquela partida medíocre por causa de um jogador. Adriano? Robinho? Diego? Luiz Fabiano? NÃO! Juan Román Riquelme. A qualidade do passe desse jogador é algo lindo de se admirar. Cercado por três marcadores, com apenas um toque, ele deixa o companheiro na cara do gol - que o hermano perdeu, mas não importa. Vale a pena ver a genialidade de Riquelme com a bola, a afinidade com que os dois se tratam. Ele fala com os pés e ela obedece, caprichosa!

Há quem diga - e não são poucos - que Cristiano Ronaldo, o atacante - mascarado - português, seja o melhor jogador do mundo. Da temporada européia pode até ser - desde que se descontem as finais que ele disputa. Mas, na humilde opinião desta colunista, hoje, o melhor jogador do mundo é o dono da camisa 10 da Argentina, Juan Román Riquelme.

Sobre a seleção brasileira?
*espírito Copélia baixando*
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