sábado, 19 de maio de 2007

A Venenosa por Simone Azevedo

Jornalista 007
Sem licença para matar

A mídia já vestiu a carapuça de “quarto poder”. Cumprindo a tarefa a qual foi destinada, de “esclarecer os cidadãos”, executa uma “prestação de serviço”. O poder que emana da posição de “quarto poder” permite o uso de meios ilícitos na obtenção de informações? Em nome do supremo valor ético da transparência e do sagrado direito de informar a todo e qualquer custo, pode o jornalista fazer uso de câmeras escondidas, grampos telefônicos e de qualquer imagem ou declaração obtida sem o consentimento e/ou conhecimento da fonte?
Esclareçamos algumas premissas:
Primeiro, este ideal de transparência é enganador, uma vez que esconde coisas importantes como os interesses empresariais dos próprios jornais e das fontes que os alimenta, e o processo de seleção das informações que nos são oferecidas. “Assuntos de interesse público o público tem o direito de saber”. E cabe às empresas de comunicação mais do que ao público decidir o que é de interesse público?Elas têm mais “discernimento” para decidir sobre o que o público precisa saber, sobre o que o público quer saber? Não. Mas é isso que acontece. O caso Tim Lopes exemplifica claramente a ideologia por trás das escolhas das noticias de “interesse público”.
O repórter Tim Lopes iniciara a apuração de uma matéria na favela de Vila Cruzeiro, supostamente atendendo a pedidos de moradores que, indignados, teriam telefonado para a TV Globo denunciando a realização de bailes funk com shows de sexo ao vivo protagonizados por adolescentes e farto consumo de drogas, sob o patrocínio de traficantes locais. O repórter teria ido a favela três vezes. Ao retornar pela quarta vez com uma microcâmera escondida, desapareceu. A confirmação de sua tortura seguida de assassinato comandado pelo traficante Elias Maluco, saiu uma semana depois.
Adolescentes protagonizando shows de sexo e consumindo drogas é noticia de interesse público com toda certeza. Mas por que arriscar a vida de um jornalista para documentar o que todo mundo já sabia que estava acontecendo? A globo estaria tentando transformar a informação jornalística em reality show? Porque não fazer o mesmo esquema “repórter 007” em festinhas freqüentadas por políticos, empresários, artistas, socialites e em “reuniões de negócios” e “encontros políticos”? Porque o jornalismo segregacionista está pautado em marginalidade social. Prefere escancarar a criminalidade das classes populares e escamotear a das elites fomentando a cultura do medo e incentivando á formulação de políticas cada vez mais repressivas de segurança pública ao invés de promover a luta pela igualdade social como único meio de conter a violência e o crime. Assim, mantém-se o status-quo social e econômico.
Segundo, o objetivo maior desse tipo de reportagem feita com uso de câmeras escondidas e grampos telefônicos é promover o espetáculo. Dar a sensação de que penetramos em lugares proibidos, que descortinamos falcatruas, que revelamos crimes, que fizemos justiça antes mesmo da própria Justiça. Mas as evidências obtidas nesse tipo de gravação são falaciosas, uma vez que encobrem as interferências contidas na mediação, como por exemplo o comportamento do repórter que, na maioria dos casos, funciona como agente provocador do ato ilícito.
Terceiro, ser jornalista é a única proteção que um jornalista tem para entrar em zonas de conflito e sair vivo para contar a história. Ser confundido com um espião, ou se confundir com um, põe em xeque não só a sua segurança como também a própria liberdade de imprensa.
Quarto, a ética do profissional de imprensa exige que ele sempre se identifique como tal. Quem fala para uma reportagem tem o direito de saber que está falando para uma reportagem. Além do mais, é uma tremenda invasão de privacidade filmar ou gravar conversas de pessoas que não sabem que estão sendo observadas. Isso prova mais uma vez que esse pseudojornalismo investigativo está em busca da espetacularização.
Esclarecidas essas premissas, está aberto o debate.

2 comentários:

arcanjo disse...

eu8 quero ser jornalista 007!!!!

BruneLLa França disse...

meu cpf é 007!
registrada!
hehehehehe!!!
já provei minha eficiencia em espinogem, não é, BERNADETTES?????????


Opinião: não, não podemos usar de meios sub-reptícios para obter informação.
E sim, a opinião pública - s é q ela existe - é manipulada!